No deserto de uma folha em branco faço-me por inteiro: Canto com os cantos infinitos brancos, que de tão brancos silenciam ventos – tempestades de areia em um coração de andarilho. Quando fecho meus olhos, me faço sombra em um sombrio deixe estar. Meu nome talvez jamais seja sussurrado, mesmo sendo o vento do meu deserto infinito. Sinto o cheiro de nada que se aproxima de mim, as palavras não fazem sentido, mesmo sendo eu e uma suposta amada nativos silenciosos desse deserto preenchido liricamente por uma folha em branco.


Acordar, sinto saudades dos dias em que acordar era o natural abrir dos olhos e da alma para o milagre de viver. Agora, acordar é dar-se com um sufoco no peito, uma pressa e um pulo, mesmo aos domingos e dias santos. Acordar com a alma deslocada, um vago no lugar deixado, uma dor inexplicável. Em tal situação não há outro jeito senão esperar que o banho frio, o café, o abrir da janela, a escuta de barulhos comuns do quintal, da mata ao fundo, convençam a alma a reocupar o correto espaço no peito. Acordo, mas me engano, o dia ainda não amanheceu. Estou estirado sobre a cama, vestido com as roupas, o peso e a poeira do dia anterior. Mas, O seu sorriso aceso ilumina o buraco do deslocamento da alma. O seu beijo acende a paixão e o desejo explode em nós. Atordoado, me entrego a sua entrega, não sei o que fazer, mas sei, logo nos encontramos debaixo do lençol. Esquento-me nas suas brasas e ardências de calor, os minutos viram o inferno e entornam seu fogo sobre meu corpo, dou um salto, retiro toda a roupa, exponho-me à própria nudez, volto para seus braços e a dor se vai e o amor pulsa no peito.

Experimentamos certezas.
Cavamos as incertezas.
E salivamos.
Salivamos pela garra.
De fantasias. Alucinadas.
Gememos de ânsia.
E os dedos molhados em suor.
Prova de cada gota.
Uma por uma.
A escorrer pelo pescoço abaixo.
Alimento desenfreado.
Atrevido.
Desejo libertino este,
Que se instalou entre a pele e os ossos.
E os estalos cada vez maiores.
Emancipam-se os desejos.
Anarquia total de gemidos.
E já vai pele, agarrada as unhas.
E os dedos encharcados de retalhos de alma.
Universos. Que já não são paralelos.
Perpendiculares suculentas.
De ti. De mim. De nós.
Extraviam-se os medos.
Os passados. Daqueles dias.
É madrugada. Chove nos lençóis.
Até amanhã.