
Descreve-me.
Conta-me uma história
sem que grites uma mentira.
Sem que dê uma facada
no mundo; em mim.
Cá dentro
onde
as palavras não chegam.
Quantas horas de solidão?
Uma perdição desconhecida
como quem diz febre excessiva
que ofereça de beber às lágrimas.
Ninguém pode saber
que o dia começa tarde,
que a dor sufocou
ao canto da cama,
que o amor aconteceu
e já ninguém sabe se volta.
É assim que se prova a imprudência?
As cores dos objetos
todas fora do lugar;
uma ligeira corrente
de ar assustada
pelos malabarismos
de um corpo
que finalmente
se entrega ao cansaço.
O amor permanece?
E a lua refletida
na janela ao calor da noite.
Às vezes isto.
Bastava dizer aqui.
Eu podia fingir
olhar para o teto,
imaginar-me dentro
das ausências do mundo,
e esquecer o impossível.
Entre o teu corpo
e o meu
uma vaga...
Ou precipício?
Onde não nos deixamos
cair por capricho.
Adormecemos.
Eu queria plantar rios,
regar todas as flores,
transpirar mapas
e invadir fronteiras inúteis
até que se rasgassem de raiva.
Se no lugar do coração
tivessem crescido
mãos dadas
os pássaros não mais se esconderiam.
Venham ter comigo.
Esfrego os olhos
e escrevo em colapso:
sou uma folha que se fechou
antes mesmo de existir.
Tic tac Tic tac Tic tac Tic tac.
Não há tempo para vender a alma.
Carrego memórias
de um lado para o outro
e sorrio a quem passa.
Começa tu de novo, por favor:
conta-me uma história
de gestos vermelhos
que queimam como lava
e tanto salvam como maldizem.
Estende-me esse olhar
e é como quem diz: Ama-me.
Vem comigo.
Há palavras que merecem silêncio.
Mas quem é capaz de percebê-las
sem antes precisar sangrá-las
na sua insensatez?
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