vinho


silêncio.

na mesa uma quietude.

triste e frouxa.

o primeiro copo bebido foi de cerveja.

uma espécie de cimento fresco

para o ardor de quem gosta de vinho. saí.

está tudo muito cheio. de gente. de vazio.

o ar não se respira.

nas mesas, o vinho tinto encorpado

é de um escuro sólido.

o vinho branco cristal na transparência verde da uva.

a água, essa condensava, sem piedade e pesada.

lá fora corre o tempo de um outro mundo.

um mundo que não quero meu.

daqui onde estou vejo olhares vagos. não há sorrisos.

as bocas não têm expressão nenhuma.

os gestos são cenas do cinema mudo.

fazem-se movimentos com os lábios.

pessoas abrem os braços. asas inúteis para voar.

vejo o silêncio. incolor. vou para casa.

na minha sala abro uma garrafa de bom ano.

pego na rolha de cortiça e levo ao nariz a sentir o vinho.

tinto. sinto o aroma azedo de madeira molhada.

uma cor rubi corpo redondo

consistência aveludada na boca.

pela maciez e suavidade,

diria que fora convenientemente envelhecido.

guloso. belissimo. os meus olhos brilham.

um abrir-e-fechar de olhos.

e bebo.

bebo, bebo,

bebo...

agora sim consigo ouvir me respirar. bebo.

Nenhum comentário: